A parte
mais importante do Curta “De quem é a culpa?”, produzido pelo grupo de teatro
Lua Serena que estreou na última sexta-feira, dia 27, no Candinha Bezerra, foi
sem sombra de dúvidas o depoimento de uma senhora, moradora do bairro Paraíso
que teve o filho assassinado pelo envolvimento com o tráfico de drogas. A
análise histórico-sociológica do lugar social que o jovem assassinado ocupava:
homem, jovem, negro, morador de periferia, nos permite ir além do reducionismo
liberal que culpa o indivíduo e nos leva a enxergar em toda a sua potência o
racismo estrutural da sociedade brasileira.
Noutro
momento escreverei sobre a outra dimensão do problema que é o fracasso da
utopia proibicionista. Por hora, quero chamar a atenção pra uma questão
essencial que ficou de fora de toda a discussão.
Apesar
dos atores brancos nos papéis de mãe e filho representando o drama das mortes
violentas causadas pelo tráfico, é do drama de pessoas negras que o Curta fala.
Por isso é fundamental olhar pra trágica história da mãe que se dispôs a
nos contar o seu sofrimento. O martírio da mãe negra e pobre que está imersa numa realidade social que
independe de sua vontade, sem saber que, na sua quase totalidade, o seu destino e o destino
dos seus já está traçado. Por que ser pobre e negro no Brasil significa ser
discriminado duas vezes, uma pela pobreza, outra pela cor.1
Em algum
momento do debate, alguém proferiu a seguinte máxima:
"Quem
se envolve com drogas, das duas uma: ou vai parar na cadeia ou no
cemitério." Será mesmo? Não é isso que dizem as pesquisas sobre os
homicídios e sobre as pessoas presas por tráfico de drogas no Brasil.
Para ficarmos apenas com o exemplo da nossa cidade, quantos filhos brancos de
classe média ou das famílias tradicionais de Santa Cruz foram assassinados nos
últimos anos pelo consumo de drogas ilícitas ou no envolvimento com o tráfico?
Que eu saiba, nenhum. Para estes, nem cadeia nem cemitério. Todo o apoio da
família, proteção da polícia, etc.
Cadeia
ou cemitério somente para os negros pobres. Alguém tem dúvidas disso? Se não
temos, então por que não tocamos nessa questão? Por que?
Coloquemos
então, com todas as nossas forças a responsabilidade por toda essa violência
cotidiana, pela morte do filho da corajosa senhora, por todas as vidas perdidas, na conta do racismo estrutural e da nossa política de drogas proibicionista que financia o tráfico e que manda pra
cadeia e pro cemitério seletivamente os negros pobres vítimas de um engenhoso apartheid racial e social.
Dar-se
conta disso, nos colocará mais próximos da solução, do que se continuarmos a
negar a existência do preconceito racial e da lógica de extermínio que ele engendra.
Referências
Bacana, apesar de não ter visto o filme/documentário, o seu é comentário é bastante ponderado a respeito da segregação racial/econômica brasileira.
ResponderExcluirContinue!
Ótima reflexão. Não só em Santa Cruz a cadeia/cemitério tem cor, sexo e renda... Essa é uma realidade a nível nacional. E como o discurso estatístico é o que tem vez, devemos humanizar esses números... Não são apenas números...
Excluir